Planta não é museu
Ou por
que a natureza está tão longe da cidade que um milho vira obra de
arte?
Há alguns fatos históricos que trouxeram as plantas para o museu. E
elas chegaram de diferentes formas e abordagens. Renascimento,
Pandemia etc. Nesse texto tento organizar minha pequena raiva (de
agricultora e artista) desenvolvendo essa ideia de que planta não é
museu ou poderia até ser, caso proposto de uma forma menos
exotizante. Acho que posso começar lá na Modernidade e usar o termo de Malcom
Ferdinand: Fratura.
A fratura ambiental decorre dessa grande partilha da modernidade,
a oposição dualista que separa natureza e cultura, meio ambiente e
sociedade, estabelecendo uma escala vertical de valores que coloca “o
Homem” acima da natureza." Por uma ecologia decolonial, de Malcom Ferdinand
O que aconteceu lá no século XIV foi nos afastar dos ipês, dos
tamanduás, das plantas e da pertença de natureza. E isso se
atualiza até hoje e a Arte, por vezes, endossa. Detalhe, não foram
todos que se afastaram: as populações indígenas, ribeirinhas, quilombolas... nunca vivenciaram
essa fratura, por exemplo. O Renascimento foi esse período que o
Ocidente reposiciona a humanidade diante de si mesma e da terra, ou
seja, rompe com a floresta. Essa rescisão favorece ao capital e
somente a ele. O meio ambiente vai se encaminhando a uma
objetificação: pegamos o precisamos na natureza, a utilizamos. O
solo deixa de ser vivo e vira depósito de nutriente, e a indústria
farmacêutica extrai sua medicina. O paisagismo organiza a beleza. O artista bota a planta no museu. Que lindo! Já a Pandemia foi esse momento que quisemos todos estar no mato e não na cidade. Fuga.
Algumas artes se apropriam da natureza e a torna oca. Digo algumas porque
há arte indígena e essa sim fortalece, pela planta e outros
imaginários, a terra. Essa sim reivindica território dentro do museu e o faz sem
monumentalizar o milho, a roça, a natureza. Essa sim traz pertinência, responsabilidade, coletividade, inspiração e reconexão. Essa sim deve ser celebrada por tanta firmeza.
Inúmeros artistas tem levado ao cubo branco a planta, em sentido
lato sensu. Será que esses artistas sugerem uma aproximação? O
museu é esse lugar? Esse esforço projeta um pensamento que implica
uma ontologia da terra, em que se reconhece a importância, ou só
a estereotipa mantendo-a ainda distante? Como propor um mundo a
partir da ecologia de museu?
Para
ilustrar o que escrevo:
a obra Systems Synthesis do Coletivo Berru, de
Portugal.
Nas palavras do Coletivo: “um drone pulsante de
ventiladores, osciladores e folhas de farfasso ressoa da síntese de
sistemas (…), natureza e tecnologia mantidas em tentativa de
simbiose. Um ecossistema de fóruns urbanos selvagens, com cerca de
dois metros de diâmetro, foi arrancado de um lote abandonado da cidade e cuidadosamente transplantado para uma galeria do MNAC.”
Outro exemplo é a obra Mon Pre exposta na Konig Gallerie em Berlim, de Bosco Sodi, do México.
Nas palavras do curador: "A oliveira toma lentamente o seu lugar na paisagem, rasgando o solo
estéril, segurando firmemente as folhas na face do vento; sempre
lançando sombra, movendo-se para a frente, enchendo lentamente seus
frutos com óleo, reconciliados para sempre com o caos dos elementos,
encontrando seu lugar na terra. A pedra e a madeira embutidas nas
pinturas verdes espelham a oliveira, esculpindo a matéria estéril da
tela, enquanto ao mesmo tempo são embaladas por ela. A madeira e a pedra
tornam-se os habitantes da paisagem natural da pintura, tornando-se
como eles existem em harmonia com sua matéria. Cada pedaço de madeira
reflete a atitude da oliveira; uma reconciliação com o caos das
composições."
(Procura no google essas "artes", porque eles
me cobraram 500 euros de direito autoral por ter publicado aqui uma foto das obras em si. Mesmo eu dando o crédito. Dei o crédito mas não pedi autorização para "mostrar" no meu singelo blog que ninguém lê. Sim! E paguei. Eu, Polly Di, brasileira, agricultora, artista paguei muitos euros para um museu europeu ou então eles iriam me processar. Não sei
nem o que pensar, viu!? Parece que toquei em um ponto importante.)
Esses tipos de obras nos museus e galerias atualizam o conceito colonial de ruptura,
romantizam a natureza escapatória, o fugere urbem, dá crédito a um naturalismo individualista. Essa é a interação, mediada pela arte, que queremos com a natureza? Arrancar de um lote abandonado um pedaço de ecossistema, colocar ao redor de parafernálias tecnológicas. Arrancar uma oliveira saudável e centenária da terra para falar de vida? É pouco, é fraturado, é cosmofóbico e levemente obsceno. E, nesses termos, PLANTA NÃO É MUSEU.
Março.2025.