cafona e brutal
Queria começar falando do milho que estamos colhendo, e de novo. A cada ano que passa ele fica melhor, com os cartuchos mais cheios e a "criolice" mais enraizada. Parece que a semente vai mesmo se fortalecendo. São mega saborosos, adoro comer cozido. Mas amo milho refogado também. Amo milho por motivos de Goiás. Milho e carne são a base da minha alimentação. Pamonha e churrasco. Queria começar também falando sobre como o mundo anda brutal e cafona, usando as palavras da minha amiga Eugênia. Ela me mandou uma mensagem de aniversário e dizia assim: "Alegria pra você. Que esse novo giro traga mais vontade de viver apesar da brutalidade e da cafonice!" SIM, GÊ. Brutal ler um texto que tem como título "Contra Nego Bispo". Brutal a morte do cachorro em Florianópolis. Cafona BBB 26. Cafona verão na Bahia. Venham mais não. Cafona eu ontem na cidade de São Jorge dos Ilhéos, como uma calça maior que meu número, ganhei de segunda mão e achei bonita, ainda não tinha um jeans preto de marca boa. Eu ia usar de qualquer jeito aquela calça. Entrei numa loja de material de construção, lá tinha um espelho. Parecia que estava com uma fralda. Um volume horroros. Uma senhora cafona. Não tenho um espelho decente em casa, tá faltando um de corpo inteiro. Espelho é básico. Anos sem e continuo. Preciso de um espelho. Eu fui desistindo de alguma vaidade que ainda me restava. Brinco com minhas amigas falando que embaranguei. Elas sempre riem muito. Eu lembrei de Remédios, a bela. Acho que tentei ser ela. E acho que também desisti de alguma intelectualidade. Mesmo eu sendo a pessoa mais intelegente que eu conheço. Tenho uma amiga, professora universitária de federal, que me lembrou com todo carinho do mundo que não sou acadêmica. Eu planto milho. Eu vendo banana. Queria começar falando que as abelhas sem ferrão da Amazônia se tornaram os primeiros insetos a receber direitos legais em qualquer lugar do mundo. O direito dos animais é parte de uma luta maior pela sobrevivência humana na Terra. Inimaginável que até hoje nosso direito, nossa compreensão não abarca quem não consegue se defender sozinho. Sei lá. Que mundo ruim. Queria começar falando que às vezes nem eu acredito que durmo aqui no mato. E lembro muito do primeiro dia e lembro muito de hoje. Quando a gente decide algo sobre a vida tem um coisa de mistério no que vai vir a seguir. Você até imagina mas bom mesmo é ser surpreendida. Óbvio que se você planta arroz não vai mesmo colher feijão, mas acredita que você pode não colher nem o arroz. Esse mistério, o de quem não controla a natureza. O impulso da vida, que é uma coisa grande demais, tipo igual que nem o mar. O mar é tema de um cineclube que estou fazendo a curadoria. Cine Jangada. Coisa fina. A pesquisa de narrativas marítimas parece soar estranho para mim que sou de antes do mar, de antes de se chegar no mar. Mas acontece que também já estou pertencida há alguns anos a essas bandas litorâneas. Ceará + Bahia, noves fora e são dez anos de beira. Antes de ontem de ontem eu vi novamente o nascer da lua no mar. E eu tenho uma foto tão novela das nove, segundo minha amiga Lívia, que fico até sem graça de mostrar. Vi a lua nascer bem formidável, bem parecendo mentira de tão linda, cafona e brutal.
janeiro 2026


"As fronteiras são muros morais" (Analógica. Minolta X-500. Lecce, Itália)

35mm. Meu pé no pé do Baobá. Fortaleza. 2024.




Kelly e veludos. 35mm. 

Meus sonhos mudaram significativamente. Sempre sonhei muito. Mas existia um autocentramento que me desanimava. Quando cheguei nessa parte de A queda do céu: 




